Por Dr. Guilherme Rossi | CRM-PR 37223
Atualizado em 29 de agosto de 2026
Descobrir um mioma em uma ultrassonografia costuma trazer duas dúvidas quase imediatas: “isso é câncer?” e “vou precisar retirar o útero?”. Na maioria das vezes, a resposta para as duas perguntas é não.
Miomas uterinos são tumores benignos do músculo do útero. Muitas mulheres nunca apresentam sintomas e descobrem o mioma por acaso. Em outras, ele pode estar relacionado a sangramento menstrual aumentado, anemia, cólicas, sensação de peso na pelve ou dificuldades reprodutivas. O que realmente importa não é apenas o tamanho: número, localização, relação com a cavidade uterina, sintomas e desejo de engravidar ajudam a definir a conduta.
O que são miomas uterinos?
Miomas, também chamados de leiomiomas, são formações benignas originadas principalmente das células musculares do útero. Eles podem ser únicos ou múltiplos e variar de poucos milímetros a volumes capazes de aumentar bastante o tamanho uterino.
São muito comuns durante a vida reprodutiva. Como uma parcela importante das mulheres não apresenta sintomas, a frequência real varia conforme a população estudada e o método utilizado para procurar os miomas.
A ACOG descreve os miomas como os tumores benignos pélvicos mais comuns e reforça que muitas pacientes podem permanecer completamente assintomáticas.
O que causa o aparecimento dos miomas?
Não existe uma causa única. O desenvolvimento dos miomas parece resultar da interação entre fatores genéticos, hormonais e biológicos. Estrogênio e progesterona participam do crescimento desses tumores, o que ajuda a explicar por que eles são mais frequentes na idade reprodutiva e frequentemente diminuem de tamanho após a menopausa.
História familiar aumenta a probabilidade de miomas. Eles também são mais frequentes, podem surgir mais cedo e apresentar maior carga de doença em mulheres negras. Obesidade e outros fatores metabólicos também aparecem associados a maior risco em diferentes estudos.
Ter um fator de risco não significa, porém, que a mulher necessariamente desenvolverá miomas. Da mesma forma, não existe hoje uma estratégia capaz de prevenir todos os casos.
Quais são os tipos de mioma?
A localização é uma das características que mais influenciam sintomas, fertilidade e escolha do tratamento. De forma simplificada, os miomas podem ser:
- Submucosos: têm contato com a cavidade uterina e podem deformá-la. Mesmo quando pequenos, podem estar relacionados a sangramento menstrual aumentado e, em alguns casos, a alterações reprodutivas;
- Intramurais: ficam predominantemente dentro da parede muscular do útero. Dependendo do tamanho e da proximidade com o endométrio, podem causar aumento do fluxo menstrual, cólicas ou aumento do volume uterino;
- Subserosos: crescem em direção à superfície externa do útero. Em geral, têm menor relação com sangramento, mas miomas volumosos podem provocar pressão pélvica ou compressão de estruturas próximas, como bexiga e intestino;
- Pediculados: são miomas ligados ao útero por uma haste fina, chamada pedículo, podendo crescer em direção à cavidade uterina ou à superfície externa. Os sintomas variam conforme sua localização e tamanho, podendo incluir sangramento, dor ou sensação de pressão pélvica. Em casos raros, a torção do pedículo pode causar dor súbita e intensa.

A Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) utiliza uma classificação mais detalhada, de tipos 0 a 8, baseada na relação do mioma com o endométrio, o miométrio e a superfície externa do útero. Esse mapa anatômico ajuda a planejar tratamentos, especialmente procedimentos histeroscópicos ou cirúrgicos.
A classificação da FIGO continua sendo uma referência internacional para descrever com precisão a localização dos leiomiomas.
Quais sintomas os miomas podem causar?
Muitos miomas não causam sintoma algum. Quando aparecem manifestações, as mais frequentes incluem:
- Menstruação mais intensa ou prolongada;
- Sangramento uterino fora do padrão habitual;
- Anemia causada pela perda menstrual excessiva;
- Cólicas ou sensação de peso e pressão na pelve;
- Aumento do volume abdominal em úteros muito aumentados;
- Vontade frequente de urinar ou dificuldade para esvaziar a bexiga quando há compressão;
- Constipação ou pressão retal em miomas volumosos;
- Dor durante a relação sexual em algumas pacientes.
O tamanho não explica tudo. Um mioma relativamente pequeno que deforma a cavidade uterina pode provocar muito mais sangramento do que outro bem maior localizado na superfície externa do útero.
Como descobrir se tenho mioma?
A suspeita pode surgir pela história clínica, pelo exame ginecológico ou por um exame de imagem feito por outro motivo. A ultrassonografia pélvica, especialmente a transvaginal quando apropriada, costuma ser o primeiro exame utilizado porque permite avaliar quantidade, tamanho e localização dos miomas.
Em situações específicas, ressonância magnética, histerossonografia ou histeroscopia podem ajudar a esclarecer a relação do mioma com a cavidade uterina ou a planejar um procedimento.
Todo mioma precisa ser tratado?
Não. Encontrar um mioma não significa que seja necessário começar um tratamento imediatamente.
Quando a paciente não apresenta sintomas e não existe uma situação clínica ou reprodutiva que exija intervenção, muitas vezes é possível apenas observar. O seguimento deve ser individualizado, com reavaliação clínica e exames de imagem quando houver indicação.
A decisão de tratar deve considerar o impacto do sangramento e da dor, presença de anemia, idade, localização e tamanho dos miomas, desejo de engravidar e preferência da paciente. Por isso, duas mulheres com miomas de tamanho semelhante podem receber propostas completamente diferentes.
Quais são os tratamentos para miomas?
Existem opções para controlar sintomas, medicamentos que interferem temporariamente no estímulo hormonal do mioma, procedimentos minimamente invasivos e cirurgias. A escolha depende do objetivo do tratamento e não existe uma única opção ideal para todas as mulheres.
Medicamentos para controlar sangramento e dor
Essas estratégias tratam principalmente os sintomas e não significam que o mioma foi eliminado.
Quando a principal queixa é sangramento menstrual aumentado ou cólica, podem ser utilizados, conforme o caso, anti-inflamatórios, ácido tranexâmico e tratamentos hormonais. Anticoncepcionais e o dispositivo intrauterino com levonorgestrel podem ajudar a reduzir o sangramento em pacientes selecionadas; o DIU hormonal, porém, não é uma boa opção quando o mioma distorce significativamente a cavidade uterina.
Medicamentos que atuam sobre o estímulo hormonal
Agonistas e antagonistas do GnRH podem ser utilizados em situações específicas para reduzir sangramento e, dependendo do esquema, diminuir temporariamente o volume dos miomas. Esses tratamentos exigem indicação individualizada porque podem ter efeitos adversos, limitações de tempo de uso e retorno dos sintomas ou do volume após a suspensão.
Miomectomia: retirar o mioma preservando o útero
A miomectomia é a cirurgia que remove um ou mais miomas mantendo o útero. Ela pode ser realizada por histeroscopia, laparoscopia ou cirurgia aberta, dependendo da localização, do número, do tamanho e da profundidade das lesões.
É uma opção importante para mulheres que desejam preservar o útero e, em determinados cenários, para pacientes que pretendem engravidar. Depois da cirurgia, os miomas retirados não voltam, mas novos miomas podem aparecer ao longo do tempo.
Histerectomia: retirada do útero
A histerectomia é o tratamento definitivo dos miomas porque, sem o útero, não há possibilidade de novos leiomiomas uterinos. Isso não significa que seja a primeira opção para toda mulher com mioma.
A indicação costuma ser discutida quando os sintomas têm impacto importante, outras opções falharam ou não são adequadas, e a paciente não deseja preservar o útero. A retirada do útero não obriga a retirada dos ovários. Quando eles são preservados, continuam produzindo hormônios e a cirurgia não provoca, por si só, uma menopausa imediata.
Existem alternativas à cirurgia tradicional?
Sim. Em pacientes selecionadas, embolização das artérias uterinas e técnicas de ablação por radiofrequência podem ser consideradas. Cada método tem indicações, limitações e níveis diferentes de evidência, especialmente quando existe desejo de gestação futura.
Por isso, a pergunta mais útil não é “qual é o melhor tratamento para mioma?”, e sim “qual tratamento faz mais sentido para este mioma, para estes sintomas e para os planos desta paciente?”.
Mioma pode causar infertilidade?
Pode interferir, mas a relação não é igual para todos os tipos de mioma e ele não deve ser considerado automaticamente a causa da infertilidade.
As evidências são mais consistentes para miomas que deformam a cavidade uterina, principalmente os submucosos. Em 2026, documentos da American Society for Reproductive Medicine (ASRM) continuam destacando que a remoção de miomas submucosos ou que distorcem a cavidade pode melhorar a chance de gravidez em situações selecionadas, enquanto o benefício de operar miomas intramurais que não deformam a cavidade permanece incerto.
Veja a orientação atual da ASRM sobre miomas que interferem na cavidade uterina.
Antes de atribuir uma dificuldade para engravidar ao mioma, é importante avaliar idade, ovulação, reserva ovariana quando indicada, trompas, espermograma e outros fatores do casal.
E durante a gravidez, o mioma é perigoso?
Na maioria das vezes, a gestação evolui bem. O impacto depende principalmente do tamanho, da localização e do número de miomas.
Estudos observacionais e meta-análises associam os miomas a maior frequência de alguns desfechos obstétricos, como parto prematuro, apresentação pélvica, placenta prévia, hemorragia pós-parto e cesariana. Entretanto, a força dessas associações varia entre os estudos, e uma revisão publicada em Obstetrics & Gynecology em 2025 questionou parte de associações tradicionalmente consideradas como certas.
Na prática, isso significa que ter mioma não transforma automaticamente a gravidez em uma gestação problemática. O acompanhamento deve considerar as características específicas dos tumores e a evolução materna e fetal.
Durante a gravidez, o tratamento costuma ser conservador, principalmente para controle de sintomas. Cirurgia é reservada para situações excepcionais. A retirada de miomas durante uma cesariana também não deve ser encarada como rotina: uma revisão Cochrane de 2025 concluiu que a evidência sobre benefícios e riscos da miomectomia realizada no mesmo ato da cesariana ainda é de certeza muito baixa, o que reforça a necessidade de decisão individualizada.
Mioma pode virar câncer?
Miomas são tumores benignos e não devem ser entendidos como uma lesão pré-cancerosa que inevitavelmente pode “virar câncer”.
O leiomiossarcoma é um tumor maligno raro do músculo uterino. O problema é que, em uma pequena parcela de mulheres operadas por uma massa presumidamente benigna, um sarcoma pode ser descoberto apenas após a cirurgia. Por isso, a avaliação pré-operatória considera idade, sintomas, características do crescimento e exames de imagem, embora nenhum método consiga excluir com certeza um leiomiossarcoma antes da retirada do tecido.
Crescimento rápido, isoladamente, também não confirma câncer. Quando uma massa uterina apresenta características atípicas ou comportamento preocupante, o ginecologista pode indicar investigação adicional e discutir a forma mais segura de tratamento.
Quando procurar um ginecologista por causa de mioma?
Vale procurar avaliação especialmente quando houver:
- Menstruação muito intensa ou prolongada;
- Sinais de anemia, como cansaço excessivo, palpitações ou falta de ar aos esforços;
- Sangramento entre as menstruações ou após a menopausa;
- Dor pélvica persistente ou cólicas que interferem na rotina;
- Aumento progressivo do volume abdominal;
- Sintomas urinários ou intestinais por compressão;
- Dificuldade para engravidar ou perdas gestacionais recorrentes;
- Dúvida sobre um mioma descoberto por acaso em ultrassonografia.
Mesmo quando o mioma foi encontrado incidentalmente, uma consulta pode ajudar a entender se ele tem relevância para aquela paciente ou se pode simplesmente ser acompanhado.
Em resumo
Miomas uterinos são tumores benignos muito comuns. Nem todo mioma causa sintomas, nem todo mioma interfere na fertilidade e nem toda mulher precisa de cirurgia.
A decisão de tratar deve considerar sintomas, anemia, localização, tamanho e número dos miomas, idade, desejo de engravidar e preferência da paciente. O objetivo é evitar dois extremos: banalizar sintomas que reduzem a qualidade de vida ou imaginar que a retirada do útero é inevitável apenas porque apareceu um mioma na ultrassonografia.
Se você está em Londrina e recebeu diagnóstico de mioma, pode conhecer minha forma de atendimento, entrar em contato para agendar uma consulta ou acessar outros conteúdos no blog.
Referências e fontes
FEBRASGO. Mioma uterino: o que devemos levar em consideração para as tomadas de decisões. 2023.
ACOG. Uterine Morcellation for Presumed Leiomyomas. Committee Opinion. 2021.
Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individualizada.
